A Volta do Uirapuru

31/05/2013 22:15

Esta fábula foi escrita quando eu tinha 12 ou 13 anos, não sei ao certo.

Fiz hoje uma adaptação.

 

"A Volta do Uirapuru"

 

 

    Um carvalho muito antigo se ergue na margem da clareira, alto o suficiente para, durante determinadas horas do dia, lançar sombras nas águas do rio que corre muito perto.

    O vento balança suas folhas e galhos, e também as penas do exuberante pássaro que, do ponto mais alto dessa árvore, olha com tristeza os arredores.

    O que vê não deveria deixá-lo tão melancólico:

    Próximo aos arbustos, o coelho Carpinteiro saltita alegre com a vinda da estação chuvosa. O casal de papagaios Jandaia, de quem o Uirapuru foi padrinho de casamento, belisca as sementes e anda devagar porque ela espera sua nova cria. Sai da toca o esquilo Anjo e seus irmãos indo a passeio, da mesma forma que a gazela Sarita, enfeitada, nervosa porque hoje é dia de ir para a lagoa passarinhar.

    São todos conhecidos e amigos do Uirapuru, mas nesse momento a ave de canto maravilhoso não participa da festa dos bichos. Ao contrário, se lamenta, e apenas o carvalho velho sabe dos seus motivos. Chegara a hora de partir.

    Cumprindo uma promessa antiga, ele terá que voar para muito longe.

    Já sentindo a saudade de cantar para esses amigos da lagoa, do rio, das tocas e ninhos dessa clareira, o uirapuru está pronto para a partida. É em completo silêncio que ele abre as asas e levanta vôo. Diz ao carvalho que retornará, embora não saiba quando.

    E o tempo passa devagar. As folhas do carvalho velho recebem chuvas, depois o sol, as rajadas de vento antes dos invernos rigorosos. Seus galhos balançam, se quebram e se renovam. As noites de lua cheia lançam sobre aquela imponente árvore o brilho prateado, o mesmo que tremula na correnteza do rio.

    Um dia incerto então acontece.

    O carvalho vê ao longe pontilhar uma ave em vôo ligeiro.

    Aproxima-se o Uirapuru exausto, mas com o peito a explodir em um canto vibrante para seus amigos da floresta.

    Pousa no ponto mais alto. Sente as folhas, cumprimenta sua árvore amiga, e lança os olhos para os arredores abaixo.

    Um bando de garças; uma clareira alargada. Ainda o rio e a lagoa, mas talvez por não ser dia de festa, não vê nas margens o coelho carpinteiro, ou o esquilo Anjo. Aves cantam, mas ele não compreende o que dizem. Não são as jandaias que estavam ali quando ele partiu para sua longa viagem. Seres estranhos caminham em todas as direções. Não vê as tocas e os ninhos dos seus amigos.

    Não consegue cantar, e inquieto, voa rasteiro para ver mais de perto, procurar seus companheiros de serenata à luz da lua.

    Por mais que procure, nada lhe é familiar. A estranheza está em toda parte. Outros animais, outras moradias. Só o carvalho velho é o mesmo.

    É para o alto dessa árvore secular que o uirapuru retorna mais de uma vez nessa procura aflita.

    “Estariam eles escondidos, pregando-lhe uma peça?”

    “A gazela Sarita certamente deveria estar à espreita, para logo dizer seu nome e pedir sua canção predileta”.

    Não demora a perceber que tudo mudou.

    No alto do carvalho ele permanece dessa vez apenas para descansar. Não pode ficar ali, onde não há mais seus companheiros. Tudo lhe é hostil, e ele só tem uma coisa a fazer: voar novamente, desta vez para não mais voltar.

    Esquecido então das coisas que deixou da primeira vez, olha apenas para as folhas do carvalho como quem se despede, e guarda novamente seu canto. Levanta vôo e parte.

    Enquanto vai sozinho, sumindo na brancura das nuvens, faz a si mesmo as perguntas. As mesmas indagações do carvalho velho que a tudo assistiu:

    “porque tudo acaba? Porque é tão simples o fim de...um mundo?”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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